quinta-feira, 25 de abril de 2013

#Galeão São João Batista o "Botafogo"





Em 1535, os otomanos sob o comando de Khair ad-Din, também conhecido como Barbarossa, iniciaram a campanha de ataques a navios cristãos que trafegavam pelo Mar Mediterrâneo, a partir de sua base em Argel. Carlos V, Sacro Imperador Germânico- Romano, o soberano mais poderoso da Europa daquele tempo, montou uma enorme força tarefa, de cerca de 60.000 soldados, para expulsar os otomanos da região, protegido por uma frota cristã de coalizão, contendo navios portugueses, escanhoes e franceses. Carlos V destruiu a frota de Barbarossa e depois de um oneroso cerco bem sucedido a La Goleta, capturou Túnis. O massacre da cidade deixou um número estimado de 30.000 mortos.

O galeão São João Batista foi construído em Portugal no ano de 1534 (1519?) a tempo de participar da Conquista de Tunis. Pelo que consta ele tinha um deslocamento 1000 toneladas e era armado com 366 (200?) peças de artilharia em bronze. É claro que boa parte deveria ser de artilharia miúda. Mas mesmo assim era a nave mais poderosa de sua época, sendo requisitada pelo rei Carlos V para que junto com a Nau Sant’ Anna, fossem os aríetes da esquadra na tomada de Golleta. Os cronistas da época relatam que sob o comando do Infante D. Luis, irmão do Rei D. João III, ele partiu a corrente que protegia a entrada do porto de Golleta usando o seu poderoso e polêmico esporão, e que devido ao seu inigualável poder de fogo recebeu a alcunha de “O BOTAFOGO”. Os feitos deste galeão foram tantos que nobres portugueses acrescentaram BOTAFOGO aos seus nomes de família.

No Brasil, por volta de 1590, um descendente de uma dessas famílias, João Pereira de Souza Botafogo, lugar tenente do Governador Geral Antônio Salema, devido a serviços prestados a coroa, ganhou duas sesmarias, uma delas uma enseada próxima à recém fundada cidade do Rio de Janeiro, a qual ficou conhecida pelo nome de Enseada de Botafogo, hoje um famoso bairro da cidade.
Mas qual deveria ser a aparência do galeão “Botafogo”?
Para a nossa sorte a Conquista de Tunis em 1535, em espacial a tomada do porto de Golleta, talvez tenha sido a primeira batalha com cobertura jornalística, pois o Imperador Carlos V levou uma equipe de cronistas e artistas para registrarem os acontecimentos, e entre eles se encontrava  Jan Corneliz Vermeyen  que ficou famoso por suas aquarelas e tapeçarias que descrevem os acontecimentos em Golleta(vide imagem abaixo). Como já dito, o galeão Botafogo foi a ponta de lança da esquadra , rompendo com o seu esporão a corrente que protegia a entrada do porto, possibilitando a invasão. Vermeyen em duas de suas tapeçarias nos mostra o desenho  do Galeão SJB e o da Nau espanhola Sant’Anna. Olhando o desenho fica claro que ele não se preocupou com as proporções e escalas, mas as linhas gerais e os componentes, como por exemplo o esporão, estão todos lá. Existe também uma gravura pormenorizada executada por Frans Hogenberg, ainda no século XVI, baseado nos desenhos de Vermeyen, que também esclarecem alguns detalhes dos cordames.


Não tenho dúvidas que estas imagens que estou postando são as representações mais fieis do que teria sido a “verdadeira face do BOTAFOGO”.







Gravura do Roteiro do Mar Roxo de D João de Castro em 1540,
que também participou da tomada de Tunes e, portanto, testemunha ocular do 
Galeão São João Batista.



                                     CONSTRUÇÃO DO MODELO

Para esta construção além das iconografias pesquisadas, busquei também informações no Livro de Traças de Carpintaria (1616) de Manoel Fernandes. Apesar de ser um livro de 84 anos após a construção da SJB, as embarcações lá encontradas ainda preservam as mesmas características das de meados do sec. XVI. Procurei por uma embarcação de aproximadamente 1000 toneis, esguia e com características que lembrassem a de uma caravela redonda. Encontre um candidato perfeito, o pataxo de guerra. Com o desenho em escala de sua quilha e cavernas mestra e almogamas, construí um modelo 3D virtual para confecção de um plano. Depois de pronto achei bem parecido com os das iconografias.





                                   



 































Forrei o tombadilho
Preparei a tolda para forração.
Como este modelo está numa escala muito pequena (1:90), não estou me preocupando muito com os detalhes internos, já que ficarão praticamente escondidos. Portanto não reparem no aspecto tosco das cavernas, padrão galinheiro do vizinho (rsrsrs), como diz o mestre C. Mariano.











                                            Atualização em 24 de maio de 2013




  Mais alguns avanços:
As primeiras fotos demonstram como recurvar réguas no seu sentido transversal.
1) cola-se uma fita adesiva na régua de madeira.
2) fazendo pressão com os dedos, provocamos fraturas, mas sem partir-las.
3)Cola-se a régua sobre a base de madeira da primeira forração com cianoacrilato.
4) Antes que a cola seque completamente retira-se a fita adesiva e passe um ferro de engomar por sobre toda a extensão da régua.


                                   








15/06/2013
Atualizando:
-Coloquei os painéis frontais com os respectivos portais no chapitéu e tombadilho.
-Fixei as aposturas das amuradas e pintei tudo de vermelho terra.






27/06/2013
Habemus quilha ,cadaste e roda de proa.







02/07/2013
Vamos atualizar?
Abri a seteiras do castelo de proa e as aberturas para os mastros traquete e gurupés..
Fechei a parte posterior com a painel de madeira e o arco do triunfo.








06/07/2013

Senguem mais alguns avanços.
Confeccionei a amurada do castelo de proa.
Coloquei as tampas das seteiras da primeira coberta.

[



18 de agosto de 2013
Seguem mais alguns avanços. Mas antes gostaria de comentar um estranho achado que o amigo português,  licenciado em historia, José Elias está a pesquisar. Trata-se de uma bandeira de guerra incomum, retratada por Vermeyen em 1536. Sabe-se que a clássica bandeira de guerra portuguesa é de 1640, onde se vê a cruz verdadeira sobre um fundo completamente verde, mas nesta de 1536 o fundo é verde e amarelo. Vamos a guardar as pesquisas.

                                          BANDEIRA DE GUERRA CLÁSSICA DE 1640


                                    BANDEIRA NA AQUARELA DE VERMEYEN EM 1536


REPRODUÇÃO DA BANDEIRA DE 1536

E aqui os avanços na construção:
Coloquei os parapeitos das amuradas e balaustradas
Confeccionei algumas estruturas que iam na proa, conforme indica a pintura de Vermeyen.







05/10/2013 
Mais alguns avanços no esporão e no leme




12/10/2013
Seguem mais algumas fotos:
 As partes vivas casco pintado de preto simulando o calafate.
O leme já fixado com as dobradiças.
O esporão com a ponteira pintada simulando metal.



20/11/2013

Dando continuidade, segue aí as charetas já montadas. 
Alguns historiadores delegam às tais charetas a função de proteger a tripulação dos escombros que caiam dos mastros durante as batalhas, mas eu tenho a convicção que eram meras estruturas de telhados que recebiam doceis quando o barco estava fundeado, alias uma prática que perdura até os dias atuais.




08/ 03/ 2014                 
Primeiras peças de artilharia em resina.
Prova dos mastros.









11/03/2014
   Boas meus amigos.
Nessa postagem demonstro o futuro cesto do velacho. 
Este galeão também possuía cestos de mesena e contra-mesena
Em breve novas fotos do cesto da gávea.

18/05/2014







Até lá!!!                               
EM BREVE NOVAS POSTAGEM

13 comentários:

  1. cara, vc faz modelos muito interessantes, parabéns!

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    1. "cara, vc faz modelos muito interessantes, parabéns!"

      Valeu pelo comentário

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  2. Espetacular! Força e Continue! Parabéns!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Sou torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas do Brasil, acho muito legal a história do nome do time vir de um navio tão poderoso.

    Curioso que um dos nossos rivais é o Clube de Regatas Vasco da Gama, haha!

    Um vídeo sobre essa história no lançamento da camisa de 2011:

    http://www.youtube.com/watch?v=UK2OG-ppkD4

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    1. Valeu pelos comentários Rafael
      Vídeo muito interessante.
      Abraço

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  5. cara,vc tá de parabens,mano ficou incríiivel,tira uma foto dele inteira q eu posto na wikipedia,ficou maneiroooo e lindooo,queria um..

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    1. Boas Alberto
      Obrigado pelos comentários.
      Em breve estarei postando mais algumas fotos com novos avanços na construção.
      Abraço

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  6. Espectacular artigo histórico e também modelo. Gostaria imenso de ver o modelo final.

    Um abraço e continue sempre com o trabalho de excelência.

    António Geraldo
    Fiat Lux

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  7. Parabéns pelo excelente trabalho. Gostaria de saber o que você usa para revestir o casco do navio?

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  8. Oi José Azevedo
    Desculpe-me pela demora em responder. Mas par o primeiro revestimento você pode utilizar qualquer madeira, desde que seja flexivel. Neste caso usei varetas de cedro. Para o segundo foro, usa-se um foleado de madeira nobre como mógno, marfin, imbuia e etc.

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